Terapia e TCC

Skinner (1953): “O sistema científico, assim como a lei, tem por finalidade capacitar-nos a manejar um assunto do modo mais eficiente”

Por Daniel Rizzo maio 23, 2026

Esta é uma resenha crítica do segundo capítulo do livro Ciência e Comportamento Humano, escrito em 1953 por B.F. Skinner. A cópia deste livro que usarei é a de 2003, com tradução de João Carlos Todorov e Rodolfo Azzi.

Ao definir a ciência como a busca da ordem, da uniformidade e de relações ordenadas entre os eventos da natureza, Skinner parece atribuir ao conhecimento científico um caráter profundamente pragmático. Para ele, a finalidade da ciência não está na contemplação, mas na possibilidade de agir com mais eficiência diante da realidade. Se conseguimos identificar padrões, também nos tornamos mais capazes de prever acontecimentos futuros e, até certo ponto, intervir sobre eles.

Nós, enquanto humanidade, fazemos isso constantemente em nossa vida cotidiana. Observamos acontecimentos isolados, tentamos encontrar relações entre eles e, a partir dessas relações, buscamos alguma espécie de regra geral que torne o mundo menos imprevisível. A ciência, nesse sentido, não é algo distante da experiência humana comum, e sim uma ampliação sistemática dessa tendência natural de procurar padrões.

Essa ideia me remete a uma metáfora muito simples: uma partida de xadrez. Existem milhões de combinações possíveis dentro de um jogo, mas as regras precisam existir para que seja possível jogar. A complexidade do jogo não elimina a existência de padrões. Pelo contrário: ela torna ainda mais importante compreendê-los. Talvez Skinner enxergasse o comportamento humano de maneira semelhante.

Mesmo que existam inúmeras variáveis atuando simultaneamente sobre um indivíduo, isso não significa necessariamente que o comportamento seja completamente caótico ou impossível de compreender. De acordo com Skinner: “O sistema científico, como a lei, tem por finalidade capacitar-nos a manejar um assunto do modo mais eficiente” (p. 15). Essa frase revela um dos pontos mais polêmicos do Behaviorismo: a ideia de que conhecer as leis do comportamento humano também implica desenvolver ferramentas de controle comportamental. E é justamente aqui que a obra de Skinner se torna assustadoramente contemporânea.

Existe algo curiosamente parecido entre esse comportamento e o famoso Experimento da Caixa de Skinner. Talvez a diferença mais desconfortável seja que, enquanto observamos o experimento em laboratório, tendemos a acreditar que somos muito diferentes dele. No entanto, quando estamos diante de algoritmos construídos para manter nossa permanência em plataformas digitais, frequentemente também acreditamos estar completamente no controle do próprio comportamento.

Uma das maiores contribuições de Skinner foi expor o quanto o comportamento humano pode ser influenciado por contingências ambientais que nem sempre percebemos conscientemente. Isso não significa reduzir a experiência humana a uma máquina previsível, mas reconhecer que existem variáveis atuando constantemente sobre nossas escolhas, hábitos e padrões de consumo.

O que eu percebo é que o problema não é necessariamente a existência dessas ferramentas, mas o modo como elas são utilizadas. Afinal de contas, a sociedade atual nos ensinou que entender padrões de comportamento pode servir tanto para desenvolver estratégias de educação, saúde e promoção de qualidade de vida quanto para construir mecanismos sofisticados de retenção, consumo e dependência comportamental.

No fim das contas, concordo com Skinner sobre compreender a ciência não como conhecimento passivo, mas como uma ferramenta capaz de modificar diretamente a maneira como nos relacionamos com o mundo, inclusive quando não percebemos isso acontecendo.

Referência: SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. Tradução de João Carlos Todorov e Rodolfo Azzi. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Título original: Science and Human Behavior (1953).