Skinner (1953): “A ciência é uma disposição para aceitar os fatos mesmo quando eles são opostos aos desejos”
Esta é uma resenha crítica do segundo capítulo do livro Ciência e Comportamento Humano, escrito em 1953 por B.F. Skinner. A cópia deste livro que usarei é a de 2003, com tradução de João Carlos Todorov e Rodolfo Azzi.
Skinner inicia o segundo capítulo trazendo a compreensão de que a ciência, diferente de outras atividades humanas, possui algo singular: ela demonstra um progresso acumulativo. Para Skinner, os cientistas capacitam aqueles que os seguem a começar um pouco mais além. Em outras atividades, isso nem sempre acontece. As artes produzidas em nosso tempo não são necessariamente mais apreciáveis que aquelas feitas na idade de ouro da Grécia. No entanto, quando comparamos os conhecimentos científicos da Grécia com os conhecimentos científicos atuais, somos levados a concordar que houve avanços significativos. Skinner, ao fazer isso, tenta demonstrar que existe algo na ciência como um processo intelectual que produz resultados.
Essa perspectiva me fez pensar em um exemplo extremamente recente. Em um cenário onde o mundo inteiro foi afetado pela pandemia da COVID-19, foi interessante observar como as práticas científicas foram primordiais na tentativa de evitar que um desastre ainda maior pudesse acontecer. Considerando que já sabíamos como o vírus poderia se propagar, órgãos científicos da saúde rapidamente comunicaram medidas de prevenção, como o uso de máscaras, a higienização frequente das mãos, a limpeza dos ambientes e dos alimentos, além da necessidade de manter (infelizmente) um distanciamento físico entre as pessoas. Em questões de saúde mental, também se tornou necessário encontrar modos de lidar emocionalmente com mudanças bruscas até que houvesse uma possível vacina que pudesse contribuir para a imunidade contra o vírus.
Em meio a um contexto social e político caótico, médicos, enfermeiros, imunologistas, biólogos, psicólogos, psiquiatras, químicos e diversos profissionais de outras áreas da ciência assumiram uma postura voltada para a preservação da vida humana, por vezes arriscando a própria vida. Talvez um dos aspectos mais interessantes daquele momento tenha sido perceber que a ciência não funciona apenas como um conjunto abstrato de teorias acumuladas em livros, mas como uma prática humana capaz de produzir ferramentas concretas para lidar com problemas reais.
Skinner faz uma observação importante ao afirmar que Física, Química ou Biologia não são “a ciência” em si, mas produtos dela. Para ele, a ciência é, “antes de tudo um conjunto de atitudes. É uma disposição de tratar com os fatos, de preferência, e não com o que se possa ter dito sobre eles” (p. 12). Essa frase parece simples, mas possui implicações enormes. Em muitos momentos, nos envolvemos emocionalmente com certas ideias porque elas nos parecem confortáveis. Tendemos a ver as coisas da forma que queremos ver. As teorias cognitivas, comportamentais e as neurociências abordam frequentemente a influência das nossas experiências anteriores na nossa visão de mundo, e corremos o risco de enviesar nossas decisões pelo apego a informações cognitivamente confortáveis.

Talvez seja justamente nesse ponto que Skinner toca em algo profundamente humano. Uma das frases mais marcantes do capítulo é: “A ciência é uma disposição para aceitar os fatos mesmo quando eles são opostos aos desejos” (p. 13). Existe algo de extremamente desconfortável nessa ideia. Aceitar informações que confrontam nossas crenças pessoais, nossas expectativas ou nossos desejos não é algo simples. Em muitos casos, é emocionalmente doloroso. Ainda assim, Skinner parece entender que a prática científica exige exatamente essa disposição: olhar para os fatos antes das preferências pessoais. Isso talvez ajude a compreender por que debates científicos frequentemente se tornam também debates emocionais. Não estamos lidando apenas com dados, estatísticas ou observações, mas também com identidades, crenças e formas de interpretar o mundo. A honestidade intelectual, nesse sentido, não parece ser apenas uma competência técnica, mas uma postura ética diante da realidade.
O que mais me chama atenção nesse início do capítulo é que Skinner não trata a ciência apenas como produção de conhecimento, e sim como uma postura humana diante da complexidade do mundo. Produzir ciência, nessa perspectiva, envolve aceitar limitações, revisar crenças, abandonar certezas quando necessário e continuar buscando respostas mesmo assim. Talvez seja justamente isso que torna a ciência tão importante e, ao mesmo tempo, tão desconfortável. Porque aceitar os fatos nem sempre é agradável. Mas ignorá-los costuma ser ainda mais perigoso.
E você? O que pensa sobre a ciência hoje?
Referência: SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. Tradução de João Carlos Todorov e Rodolfo Azzi. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Título original: Science and Human Behavior (1953).