Skinner (1953): “Não podemos permanecer imóveis. Eliminar a ciência significaria um retorno à fome, à peste e aos trabalhos exaustivos de uma cultura escrava.”
Esta é uma resenha crítica do primeiro capítulo do livro Ciência e Comportamento Humano, escrito em 1953 por B.F. Skinner. A cópia deste livro que usarei é a de 2003, com tradução de João Carlos Todorov e Rodolfo Azzi.
A pergunta que dá título ao capítulo é: A ciência pode ajudar?
O primeiro capítulo acentua a necessidade de se pensar em uma ciência que caminhe lado a lado com a noção de responsabilidade. À época, considerava a possibilidade de construção de um mundo sadio, alegre e produtivo. No entanto, os avanços científicos construídos possibilitaram um mundo caótico e difícil.
O mundo difícil que estava posto à época foi um fator importante para entender o desamparo e o medo de agir do que ele chamou de homens de boa vontade. Sem fazer generalizações soltas, menciona também as pessoas que atacavam a ciência de forma cega, e que a mesma foi desacreditada como uma arma perigosa nas mãos de pessoas que não a entendem.
Nesse ponto, não sou capaz de distinguir se Skinner foi um cientista ou um profeta, ou ambos. Nunca se viu uma sociedade tão imersa em computadores e ferramentas de altíssima qualidade, no entanto, reproduzindo desinformação, caos e destruição de sistemas importantes para a humanidade. Para Skinner, se podemos considerar que os cientistas possuem necessariamente uma inteligência, esperava-se que estivessem preparados e alertas para estas consequências.
Não seria uma surpresa encontrar na sociedade a ideia de que a ciência deveria ser abandonada, ao menos temporariamente. Mas, para ele, nem todos estão dispostos a defender uma posição de teimoso “não saber”. Não há nenhuma virtude na ignorância pela ignorância. Retroceder cientificamente também significaria retroceder enquanto humanidade.
De certo modo, até 1953, Skinner apresentou uma visão aparentemente otimista sobre a observação cuidadosa e objetiva do comportamento humano, e sua compreensão profunda, aumentar nossa capacidade de adotar um curso mais sensato de ação. No entanto, reconhecia a dificuldade que era a aplicação da ciência ao comportamento humano. Era preciso, portanto, que os cientistas estivessem dispostos a adotar os modelos de comportamento para os quais a ciência estava conduzindo a humanidade. Esse era um dos principais desafios.
Para Skinner, a ciência vai além do seu aspecto descritivo. Um modelo de ciência deve pensar na possibilidade de “prever” o futuro através dos dados que se adquire no presente. Ciência não é só sobre passado, mas também sobre o futuro.
Em A questão da prática, Skinner critica o modelo científico da Psicologia da época, alegando que as posições teóricas vigentes eram confusas sobre o comportamento humano. Enquanto humanidade pensadora, ainda não superamos as nossas contradições acerca das vontades humanas e de suas influências ambientais. Skinner afirma:
Queremos acreditar que os homens que pensam corretamente são movidos por princípios válidos, mesmo que estejamos dispostos a considerar homens que pensam erroneamente como vítimas de uma propaganda errônea.
...
Desculpamos aqueles que discordam de nós por serem vítimas da própria ignorância, mas encaramos a promoção de nossas próprias crenças (...) como algo mais que as contingências de um ambiente particular.
A compreensão de que somos determinados por fatores ambientais são, para Skinner, aceitas em parte. Com isso, o viés dentro da produção científica pode gerar anomalias científicas perigosas. “Uma concepção científica do comportamento humano dita uma prática, a doutrina da liberdade pessoal, outra. Confusão na teoria significa confusão na prática.“
Finalizando o capítulo, Skinner lança uma série de perguntas que, até hoje são estudadas amplamente por analistas do comportamento: De que maneira pode o comportamento do indivíduo ou de grupos pode ser previsto ou controlado? Com quem se parecem as leis do comportamento? Que concepção geral emerge à respeito do organismo humano como um sistema em comportamento? Para ele, somente quando estas perguntas fossem respondidas é que poderíamos afirmar uma ciência do comportamento humano, tanto sobre a natureza humana quanto sobre os assuntos que nos permeiam atualmente (políticas, relacionamentos, sociedades e culturas em geral).
Minhas reflexões sobre o Capítulo
Nesse capítulo inicial, é perceptível que uma das maiores preocupações de Skinner com uma ciência comportamental é: se o comportamento humano pode ser estudado e analisado a partir de métricas e modelos estatísticos, o que faremos com esse poder nos próximos anos?
Reflexão minha: mesmo a história, quando analisada do ponto de vista científico, possui um caráter preditivo muito importante. Contudo, percebo cada vez mais uma espécie de ataque (se é orquestrado ou não, não sei dizer ainda) às ciências sociais e humanas como produtoras de dados fidedignos e válidos para a promoção de alteração nos modos de vida atuais. Um exemplo disso é o fim da escala 6×1 no Brasil. Mesmo com dados recentes indicando que o fim dessa jornada de trabalho pode trazer resultados não apenas na questão da saúde mental, mas também em diversos setores econômicos, a tramitação da lei segue encontrando forte resistência no cenário político atual.
Pensando no presente, se observarmos, por meio de análises comportamentais a questão da produtividade, podemos perceber que, atualmente, o salário não é mais o maior reforçador possível dentro de uma vaga de trabalho. O trabalhador também sente-se recompensado quando tem tempo para estudar, descansar, sair com a família ou outras atividades de lazer. As próprias contingências produzidas em décadas pelo modelo econômico e social evidenciam isso.
Em menos de 300 anos, vivenciamos quatro revoluções industriais, com o aumento da efetividade e do desempenho das máquinas, da comunicação, e de diversos setores estratégicos, contingências essas que são importantes para entender a modelagem do comportamento social em uma perspectiva de aceleração da produtividade, o sentimento de culpa por não produzir, mesmo em momentos de lazer, a sensação constante de vigília e julgamento sobre aquilo que é produzido.
As Inteligências Artificiais também são um produto de décadas de estudos sobre análise do comportamento aplicada. Seu uso adequado pode ajudar milhares de pessoas a desenvolverem trabalhos acadêmicos, a organizarem tarefas, desenvolverem aplicativos, inclusive localizar brechas ou problemas em sistemas políticos e econômicos de países. No entanto, em uma perspectiva pessoal, o uso irrestrito e irresponsável foi capaz de aprimorar golpes e fraudes, além do aumento de violências por uma compreensão de seu uso como máquinas de guerra, por meio de disseminação de conteúdos que vão na contramão da ciência, promovendo um cenário global de mais insegurança.
Skinner, em 1953 já abordava os riscos de um mau uso da ciência comportamental, e mesmo com os benefícios descritos com firmeza nas literaturas científicas, como o uso em terapias e intervenções na área da saúde, por exemplo, eu acredito que ele ficaria espantado ao ver como seu desenvolvimento também gerou a necessidade das maiores referências no campo da Análise do Comportamento precisarem lutar pelo básico em uma era tecnológica tão avançada. Quando digo o básico, me refiro à: saúde, conhecimento científico, lazer e, para além disso, a compreensão social de que, mesmo o indivíduo negacionista que afirma com vigor que avanços científicos, como vacinas, conhecimento espacial, terapias e outras tecnologias são ferramentas de controle social, seu comportamento também é resultado de ferramentas de controle social, mesmo que não se perceba como tal.
Respondendo à pergunta inicial, afirmo que sim! A ciência pode ajudar, desde que existam pessoas dispostas à preservar o seu método e legado. Portanto, à todos aqueles que continuam acreditando no poder da ciência de melhorar o mundo e batalham para que isso aconteça, meu mais sincero reforço: vamos juntos!
Referência: SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. Tradução de João Carlos Todorov e Rodolfo Azzi. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Título original: Science and Human Behavior (1953).